D/Z – Dossiê Zelite

Informação teórica sobre a riqueza + Etnografia dos ricos

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Como os ricos ficam ricos?

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Como todo mundo sabe, um sujeito rico ganha dinheiro com os juros de seu capital, com os aluguéis de seus imóveis, com os dividendos de suas empresas, e com a renda de suas fazendas – nos últimos dois casos, incluindo o lucro com a mais-valia do trabalho de seus empregados, acrescentaria um marxista de plantão. Isso é verdade, mas como, em primeiro lugar, esse cidadão consegue o capital para lhe render juros, os imóveis que lhe rendem aluguéis, as empresas que lhes pagam dividendos, e as fazendas geradoras de renda?

Uma parte dos ricos simplesmente tem recursos “de fábrica” (são herdeiros), outros ganham na loteria, e alguns se casam com milionários, mas esses tipos de rico compõem uma minoria. Por incrível que pareça, a maior parte da zelite enriqueceu trabalhando: são empresários, executivos, cantores, advogados, jogadores de futebol, fazendeiros, e comerciantes que trabalham muito, só que de forma escalável. Quem desenvolve atividades não-escaláveis (ex.: dentistas, contadores, pilotos de avião, artesãos, funcionários públicos, assalariados em geral, etc.) não ficam ricos – embora possuam grandes chances de terminarem a vida em melhor situação econômica que a média dos que exerceram atividades escaláveis (mas isso é uma outra história).

Como ilustração, vamos examinar a trajetória profissional do comandante Rolim Amaro, que era o presidente e principal acionista da TAM quando morreu, em 2001. O Rolim era de família pobre, e conseguiu o seu brevê fazendo bico como contínuo na zona do meretrício de Catanduva, interior de São Paulo*. Formado piloto comercial, trabalhou como empregado dos Ometto um tempo, depois teve um pequeno táxi aéreo no Norte do país, até assumir a TAM, que estava em estado (pré)falimentar na época. Daí para a frente, é a história que todo mundo conhece: do transporte aéreo regional para a maior companhia aérea do Brasil, com linhas para o exterior, capital em bolsa, marca bilionária, etc.

A trajetória do Rolim é a ideal para entendermos como funciona essa tal de escalabilidade e o que isso tem a ver com a maneira como as pessoas ficam ricas. Primeiro porque ele começou do zero absoluto, o que é raro. Segundo, porque ele teve várias fases profissionais em termos de escalabilidade: uma 100% não-escalável (piloto dos Ometto), uma 100% escalável (mega-empresário na TAM), e uma fase mista, quando tocava um pequeno táxi aéreo (atividade escalável) e pilotava seus próprios aviões (atividade não-escalável). E, em terceiro lugar, porque a atividade que o Rolim desempenhou no início de sua carreira (piloto comercial) ainda é mais ou menos igual hoje em dia, então será possível fazermos projeções sobre um “Rolim hipotético” (digamos, o sr. Rolando, que só existe no mundo teórico) que nunca deixou de pilotar para um patrão (logo, sempre desempenhou atividades não-escaláveis).

Digamos que o sr. Rolando começou a carreira pilotando monomotores ganhando R$3mil/mês, e se aposentou como comandante de 747 em vôos internacionais, com R$30mil/mês de salário. Rolando nunca passou fome na aviação, mas também não ficou rico. Por outro lado, o Rolim, que de fato ficou milionário como empresário, poderia ter falido e ficado na miséria. Na verdade, a chance do Rolim ter acabado seus dias atendendo oficiais de justiça e cobradores era muito maior do que a de ter se tornado o maior empresário da aviação nacional. Mas, na vida real, o Rolim ficou rico, e isso é que importa – afinal de contas, estamos falando sobre como os ricos ficam ricos, não como eles não ficam, não é mesmo?

De qualquer modo, para cada empresário que fica rico como o Rolim, existem milhares de outros que acabam na miséria (só que estes não têm a biografia estudada e ninguém se preocupa muito com eles). Da mesma forma, para cada Roberto Carlos que vende milhões de discos, existem milhares de outros cantores que não ganham o suficiente para comer. E o mais surpreendente é que, dentre esses milhares de cantores que nunca chegam a gravar um mísero single, muitos devem ser tão bons (talvez melhores) que o Rei. Dentre os empresários é a mesma coisa: apesar do Rolim ter sido um empresário excepcional, é certo que muitos dos que pereceram no meio do caminho tenham sido tão bons quanto. O que faz a diferença, então?

Recentemente, a Susan Boyle, uma cantora desengonçada da Inglaterra, tornou-se celebridade aos 47 anos, depois de se apresentar em um programa de calouros. O mundo ficou chocado em saber que uma cantora como aquela não havia sido descoberta antes, mas isso é o mais comum. Existem, hoje, milhares de Susan Boyles que morrerão sem ninguém saber quem foram. O que fez da Susan Boyle real uma celebridade foi ela estar no lugar certo na hora certa, um golpe de sorte, uma pequena diferença de desempenho que gerou um resultado absurdamente melhor. Foi o mesmo que aconteceu com o Rolim para que ele se tornasse o maior empresário da aviação do Brasil.

Eu ouvi dele mesmo a seguinte história. Num dado momento (muitas e muitas luas atrás), a TAM estava num momento delicado, praticamente insolvente. Não havia dinheiro em caixa nem para pagar o seguro dos aviões, que estavam vencendo, mas o Rolim, seguindo um conselho de não-sei-quem, se endividou no banco e pagou o seguro. Dias depois, um avião dele não conseguiu frear num pouso no aeroporto Santos Dumont e acabou na baía da Guanabara, dando perda total (sem mortos ou feridos). A indenização do seguro acabou resolvendo os problemas financeiros do momento, e a TAM não faliu. E se o avião se acidentasse sem o seguro ter sido renovado? Provavelmente, hoje, o Rolim estivesse pilotando para alguém na aviação executiva.

Tudo isso se baseia no mecanismo dos “mercados de tudo ou nada”, em que há altíssima assimetria entre o topo e a base da pirâmide. Logo acima, mencionei que pilotos de avião em início de carreira ganham cerca de R$3mil/mês, enquanto que os comandantes de linhas internacionais de jatos de grande porte ganham cerca de dez vezes esse valor (aproximadamente R$30mil/mês). Entre os empresários, a diferença entre os mais ricos e os mais pobres é de milhares de vezes, mesma coisa com os cantores, jogadores de futebol, etc. Respondendo a pergunta do artigo: os ricos ficam ricos porque são vencedores em mercados de tudo ou nada. Como vencer nestes mercados é que são elas: Sorte? Predestinação? Não sei; o que sei é que é preciso continuar tentando, pois a única coisa realmente certa é que quem desiste tem chance zero de ficar rico.

…Ou então partir para uma atividade não-escalável – que, segundo o Nicholas Taleb, seria a alternativa mais inteligente (isso faz parte do assunto para outro post).

*Essa história foi contada pelo próprio comandante Rolim, numa palestra para mais de 100 estudantes de administração na FEA/USP no final da década de 1980 (provavelmente 1988). Segundo o comandante, ele usava um Ford Perfect das moças para fazer serviços na cidade (ex.: ir ao banco).

(LINK para a ilustração original).

O que é “Zelite” para este blog

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“Zelite” é um neologismo construído com base na expressão gramaticalmente incorreta “as elite” – o erro de concordância indica (preconceituosamente) que se trata da elite sob o ponto de vista da não-elite. Para os propósitos deste blog, entretanto, “zelite” será o mesmo que rico, abastado, milionário – ou “riquistanês”, de acordo com o vocabulário do Robert Frank em “Riquistão“.

O Robert Frank utiliza critérios de patrimônio líquido pessoal para classificar alguém como riquistanês: pelo menos US$1milhão para pertencer ao baixo riquistão, US$10milhões para o médio, US$100milhões para o alto, e US$1bi para o Billionaireville – as quatro classificações possíveis dos ricos para aquele autor. Aqui, eventualmente utilizaremos a mesma classificação do Frank, mas o critério específico do D/Z para definir quem é rico (para alguém pertencer à zelite) é: “todo indivíduo que tenha condições sócio-econômicas para possuir um avião ou helicóptero particular que custe pelo menos US$1milhão“. Na verdade, não importa muito se a pessoa realmente tem a aeronave, mas sim se ela poderia ter se quisesse, tanto pelo ponto de vista econômico quanto pelo social. Ou seja: o indivíduo não só precisa ter renda e patrimônio para possuir um avião/helicóptero (critérios econômicos), uma pessoa da zelite não pode ficar anacrônica à bordo de um Augusta ou de um Citation X (critério social).

Esses critérios para definir a zelite, obviamente arbitrários, foram adotados porque facilitam a demarcação do campo que se pretende estudar aqui no D/Z. Não nos interessa investigar a vida do cidadão esforçado, que deu muito duro na vida, que aplicou muito bem a sua poupança, e chegou aos 65 anos com um patrimônio de mais de um milhão de dólares. Esse sujeito é o típico milionário de “The Millionaire Next Door“, um bestseller dos anos 1990 que realizou um amplo estudo sobre os estadunidenses com uma caminhonete na garagem de uma casa de 100m2 no Alabama (valor de ambos: US$250mil), que são donos de firmas de manutenção de ar-condicionado (valor contábil de US$500mil), e com US$250mil no banco, para gastar na aposentadoria. Esse sujeito pode até ser um baixo-riquistanês, mas não é da zelite: trata-se da velha e boa classe média, que é muito diferente dos realmente ricos. Quem é rico de verdade (ou seja: é da zelite) tem comportamento muito diferente do restante da população. Esse sujeito não trabalha como os outros, não se diverte como os outros, não se relaciona com os familiares como os outros, não consome como os outros, não investe como os outros. Esse sujeito, definitivamente, não tem nada a ver com a esmagadora maioria da população. E não se sabe praticamente nada sobre como essa parcela da população realmente vive, daí o sentido deste blog.

Written by Raul Marinho

11/05/2009 at 19:30