D/Z – Dossiê Zelite

Informação teórica sobre a riqueza + Etnografia dos ricos

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Riquistão – Cap.8: Filantropia performática

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Neste que é um dos melhores capítulos de Riquistão, o autor mostra dois aspectos distintos da filantropia praticada pelos riquistaneses dos EUA. De um lado, o fato de que grande parte do altruísmo estadunidense nada tem a ver com “fazer o bem sem esperar nada em troca”. Segundo o autor, grande parte das atividades filantrópicas dos EUA estaria ligada a alguma maneira de compensação (ex.: melhoria de imagem, vantagens fiscais, etc.), o que ele chama de “altruísmo competitivo”. No extremo oposto, o Robert Frank identifica um novo tipo de filantropo, que se comporta como um empreendedor capitalista agressivo, e o exemplo utilizado é o trabalho do alto-riquistanês Philip Berber – um sujeito que ficou multimilionário quando vendeu a CyBerCorp, sua empresa pontocom, no auge da bolha da internet, por US$450milhões, e fundou a Glimmer of Hope, sua super-ONG focada na ajuda à Etiópia, com uma doação inicial de US$100milhões. Na verdade, o autor procura fazer um balaceamento entre o lado podre da filantropia (ou pilantropia, de acordo com o neologismo local), e uma iniciativa interessante em termos de “altruísmo competitivo”: o “altruísmo corporativo de resultados”.

A maneira econômica de fazer brilhar a sua imagem

A idéia é simples: em termos de relações públicas, nada melhor que distribuir um sopão para os pobres. Não consigo pensar num exemplo melhor que o programa Bolsa Família do Brasil para ilustrar isso melhor, muito embora não seja uma iniciativa riquistanesa, já que efetivada pelo Estado. O fato é que (quase) toda atividade altruísta gera melhoria de imagem, e quando a imagem é muito valiosa, também deverá ser vultosa a contribuição doada. Bill Gates doou à caridade US$31bilhões em 2005, isso não é brincadeira. (Se bem que, no caso dele, também está embutido o problema da herança, que veremos a seguir – assim como também veremos por que não é bem assim). O fato é que o Bill Gates pode ter todos os defeitos, mas burro o cara não é: doar US$31bi para a caridade foi um baita negócio para ele e para a MicroSoft, uma vez que tanto ele quanto a empresa que ele fundou são entidades odiadas globalmente. Quanto vale, em dólares, uma mudança na percepção da MS pela opinião publica em, digamos, 25% para melhor?

O problema da herança

Muita gente, especialmente o pessoal da Billionaireville, está pensando o seguinte. “Será que eu seria um bilionário se meu pai me deixasse bilhões de herança? Talvez minha filha seja uma futura Paris Hilton… Melhor deixar a menina com menos dinheiro – digamos, US$300milhões”. O Frank diz que isso acontece, quem sou eu para duvidar, mas tenho minhas reservas quanto a esse tipo de comportamento. (Entretanto, é muito menos provável que um médio-riquistanês -digamos, um sujeito com um patrimônio de US$50milhões- tire um centavo da herança dos filhos. De qualquer maneira, informa o autor que uma pesquisa do Boston College’s Centre on Wealth and Philantropy (Centro [de pesquisas sobre] riqueza e filantropia da Faculdade de Boston) entre donos de fortunas superiores a US$30milhões aponta que 65% disseram preferir doar uma parte maior de sua fortuna enquanto estiverem vivos a deixá-la como herança.

A dança pelo dinheiro

Para quem acha que a sacanagem é exclusiva dos brasileiros: de acordo com um levantamento da McKinsey (a melhor consultoria dos EUA), em 2003 as ONGs americanas desperdiçaram US$100bilhões com levantamentos de fundos e despesas administrativas. Isso acontece, em grande medida, porque os doadores assim o fazem para ascender socialmente, para conquistar amigos, ou para promover interesses comerciais, e não têm nenhum interesse sobre como o dinheiro será realmente aplicado. É o que o Berber, fundador da CyBerCorp, chama de dançar pelo dinheiro ou filantropia de bem estar: “Alguém assina um cheque para a faculdade que freqüentou, depois de ter sido cortejado e paparicado, e, depois disso, sente-se bem. É a filantropia do ego social, com a qual você se torna prestigiado em seu meio. Você quer ser visto doando. Não há nada de humildade nisso; essas pessoas querem ficar em evidência e querem ver seu nome em tudo. A filantropia do ego social e do bem estar se resumem em responder a solicitações”.

O case Berber

Falando assim, friamente, parece que ganhar US$450milhões na bolha ponto.com dos anos 1999/2000 é brincadeira de criança. Mas não é, embora alguns tenham enriquecido mais por sorte do que por competência. E Berber foi um dos que merecia ganhar, pois foi o sujeito que inventou o e-brookerage, a compra e venda de ativos financeiros pela internet. Jovem (45 anos), hiperativo, nerd, atleta (maratonista), careca (tipo Marcelo Tas), “sua atividade é investir em mudanças sociais, o que exige resultados concretos e a busca pelo estilo eficiente das empresas ponto.com”, derrete-se o autor. Lógico que Berber tem oposição forte no mundo da filantropia (o pessoal das ONGs o acusa de ser tudo, menos de exemplo de filantropo), mas o fato é que o sujeito fundou uma entidade chamada Glimmer of Hope que está apresentando resultados expressivos no combate à pobreza na Etiópia. O mais interessante, entretanto, são os índices de eficiência da Glimmer – por exemplo: eles fornecem água a US$5,74/pessoa/ano e dão assistência médica a US$4,01/pessoa/ano, praticamente a metade do custo das grandes ONGs.

A receita do Berber é composta de 5 regras básicas:

1)Conhecer seu cliente: no caso da Glimmer, focada na Etiópia, o Berber praticamente se mudou para a África e realizou uma pesquisa etnográfica de campo espetacular, além de extensa pesquisa acadêmica.

2)Reduzir custos, eliminar intermediários: a Glimmer detesta ONGs intermediando recursos, e sempre que possível realiza as obras diretamente, com uma boa estrutura de fiscalização e controle.

2)Fazer os clientes se envolverem: nada mais que a tão manjada “sustentabilidade” (um conceito interessante, embora já muito desgastada pelo uso massivo na mídia).

3)Cobrar a responsabilidade das pessoas: quando a Glimmer financia um projeto, ela o faz por apensa um trimestre; se o beneficiário não apresenta resultados satisfatórios, o financiamento é cortado já no 2º trimestre.

4)Fazer os clientes se envolverem: a idéia é envolver os cidadãos no processo – “compramos os tijolos, eles constroem as paredes; compramos os canos, eles cavam as valas”.

5)Alavancar os dólares doados: um conceito empresarial que o Berber utilizou na sua empresa e adaptou para a Glimmer, que se envolve em projetos subsidiados por governos e outras ONGs, de modo a fazer render ao máximo os recursos da Glimmer.

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Written by Raul Marinho

16/06/2009 at 17:12

Riquistão – o livro

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“Riquistão: como vivem os novos-ricos e como construíram suas megafortunas”, do Robert Frank (jornalista do The Wall Steet Journal) é um livro publicado no Brasil pela editora Manole em 2008. A versão original em inglês (“Richistan: A journey through the American wealth boom and the lives os the new rich”), publicada pela Crown Publishers,  é de 2007.

O ponto de partida é a constatação do autor, no início dos anos 2000, que a população de multimilionários e bilionários dos EUA estava crescendo a taxas extraordinárias. Só para se ter uma idéia, em 1985 havia somente 13 indivíduos possuidores de fortunas de mais de um bilhão de dólares nos EUA; enquanto que em 2006, já eram mais de 400! Todo esse contingente de pessoas possui um modo de vida diferente do estilo de vida do estadunidense típico, e é como se essas pessoas formassem um país à parte, que o Frank chamou de “Riquistão”.

Veja mais aqui.

Algumas versões do livro original:

Written by Raul Marinho

12/05/2009 at 19:16