D/Z – Dossiê Zelite

Informação teórica sobre a riqueza + Etnografia dos ricos

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TWR – Você se casaria por dinheiro?

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O post abaixo, publicado em dezembro de 2007 no TWR, explora uma pesquisa feita nos EUA sobre como as pessoas vêem a questão do golpe do baú. Interessante como os paradigmas da Psicologia Evolutiva funcionam: homens são muito mais baratos que mulheres, e mulheres novas são muito mais caras que velhas (a exceção das mulheres de 40 anos deve ser mais bem explicada – eu tenho uma hipótese: nessa idade, a percepção de dinheiro é muito mais aguçada, e elas sabem que os possíveis parceiros também têm recursos). Novamente, é lamentável que pesquisa semelhante não exista no Brasil. Como será que pensam nossos compatriotas?

Casar por dinheiro é uma idéia repulsiva. Nós devemos nos casar por amor. Nós devemos procurar por nossa alma gêmea. Ou, pelo menos, é isso o que o cinema nos diz.

A realidade é um pouco mais complicada. A explosão do número de milionários e bilionários na década passada trouxe oportunidades sem precedentes para alpinistas sociais, colocando em evidência o assunto dos casamentos por dinheiro.

Na minha [do Frank] coluna impressa de hoje, eu mostro uma nova pesquisa em que se pergunta aos estadunidenses a seguinte questão: “Quanto você estaria disposto(a) a se casar com uma pessoa de aparência mediana de quem você gosta, se esta pessoa tivesse dinheiro?” Essa pergunta foi feita para 1.134 pessoas com renda anual entre US$30mil e US$60mil – bem no centro da renda média dos estadunidenses.

Metade dos homens e dois terços das mulheres pesquisadas disseram que estariam querendo “muito” ou “extremamente”. Em outras palavras, enquanto os estadunidenses dizem que se casam por amor, a maioria está querendo casar por dinheiro.

Mas qual é o preço deles?

Aqui é onde a pesquisa fica interessante. Em média uma pessoa precisa de US$1,7milhões para se interessar em se casar com alguém.

Para as mulheres, o preço muda com a idade. Mulheres na casa dos 20 anos são as que têm o preço mais alto: US$2,5milhões. Mulheres na casa dos 30 querem US$1,1milhão, mas os preços sobem novamente para US$2,2milhões quando elas atingem os 40.

Os homens são mais baratos, não importa a idade: eles querem por volta de US$1milhão.

É claro que casar por dinheiro traz um casamento e uma vida ruins. O que explica por que a maioria dos que disseram que se casaria por dinheiro também disse que não se importaria se ele acabasse. Nada menos que 71% das mulheres da faixa de 20 anos que disseram que se casariam por dinheiro também têm a expectativa de se divorciar desta pessoa.

Na nossa era mercenária, com uma diferença crescente entre os ricos e todo o resto, não é surpresa que o casamento se tornou mais uma transação comercial do que um compromisso. Não importa que os casos da Britney Spears e Kevin Federline, ou do Paul McCartney e Heather Mills, o dinheiro (quanto, quem fica com o quê) parece ser o motivador, ou pelo menos o resultado final.

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Written by Raul Marinho

27/05/2009 at 16:20

Como os ricos ficam ricos?

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ficar rico

Como todo mundo sabe, um sujeito rico ganha dinheiro com os juros de seu capital, com os aluguéis de seus imóveis, com os dividendos de suas empresas, e com a renda de suas fazendas – nos últimos dois casos, incluindo o lucro com a mais-valia do trabalho de seus empregados, acrescentaria um marxista de plantão. Isso é verdade, mas como, em primeiro lugar, esse cidadão consegue o capital para lhe render juros, os imóveis que lhe rendem aluguéis, as empresas que lhes pagam dividendos, e as fazendas geradoras de renda?

Uma parte dos ricos simplesmente tem recursos “de fábrica” (são herdeiros), outros ganham na loteria, e alguns se casam com milionários, mas esses tipos de rico compõem uma minoria. Por incrível que pareça, a maior parte da zelite enriqueceu trabalhando: são empresários, executivos, cantores, advogados, jogadores de futebol, fazendeiros, e comerciantes que trabalham muito, só que de forma escalável. Quem desenvolve atividades não-escaláveis (ex.: dentistas, contadores, pilotos de avião, artesãos, funcionários públicos, assalariados em geral, etc.) não ficam ricos – embora possuam grandes chances de terminarem a vida em melhor situação econômica que a média dos que exerceram atividades escaláveis (mas isso é uma outra história).

Como ilustração, vamos examinar a trajetória profissional do comandante Rolim Amaro, que era o presidente e principal acionista da TAM quando morreu, em 2001. O Rolim era de família pobre, e conseguiu o seu brevê fazendo bico como contínuo na zona do meretrício de Catanduva, interior de São Paulo*. Formado piloto comercial, trabalhou como empregado dos Ometto um tempo, depois teve um pequeno táxi aéreo no Norte do país, até assumir a TAM, que estava em estado (pré)falimentar na época. Daí para a frente, é a história que todo mundo conhece: do transporte aéreo regional para a maior companhia aérea do Brasil, com linhas para o exterior, capital em bolsa, marca bilionária, etc.

A trajetória do Rolim é a ideal para entendermos como funciona essa tal de escalabilidade e o que isso tem a ver com a maneira como as pessoas ficam ricas. Primeiro porque ele começou do zero absoluto, o que é raro. Segundo, porque ele teve várias fases profissionais em termos de escalabilidade: uma 100% não-escalável (piloto dos Ometto), uma 100% escalável (mega-empresário na TAM), e uma fase mista, quando tocava um pequeno táxi aéreo (atividade escalável) e pilotava seus próprios aviões (atividade não-escalável). E, em terceiro lugar, porque a atividade que o Rolim desempenhou no início de sua carreira (piloto comercial) ainda é mais ou menos igual hoje em dia, então será possível fazermos projeções sobre um “Rolim hipotético” (digamos, o sr. Rolando, que só existe no mundo teórico) que nunca deixou de pilotar para um patrão (logo, sempre desempenhou atividades não-escaláveis).

Digamos que o sr. Rolando começou a carreira pilotando monomotores ganhando R$3mil/mês, e se aposentou como comandante de 747 em vôos internacionais, com R$30mil/mês de salário. Rolando nunca passou fome na aviação, mas também não ficou rico. Por outro lado, o Rolim, que de fato ficou milionário como empresário, poderia ter falido e ficado na miséria. Na verdade, a chance do Rolim ter acabado seus dias atendendo oficiais de justiça e cobradores era muito maior do que a de ter se tornado o maior empresário da aviação nacional. Mas, na vida real, o Rolim ficou rico, e isso é que importa – afinal de contas, estamos falando sobre como os ricos ficam ricos, não como eles não ficam, não é mesmo?

De qualquer modo, para cada empresário que fica rico como o Rolim, existem milhares de outros que acabam na miséria (só que estes não têm a biografia estudada e ninguém se preocupa muito com eles). Da mesma forma, para cada Roberto Carlos que vende milhões de discos, existem milhares de outros cantores que não ganham o suficiente para comer. E o mais surpreendente é que, dentre esses milhares de cantores que nunca chegam a gravar um mísero single, muitos devem ser tão bons (talvez melhores) que o Rei. Dentre os empresários é a mesma coisa: apesar do Rolim ter sido um empresário excepcional, é certo que muitos dos que pereceram no meio do caminho tenham sido tão bons quanto. O que faz a diferença, então?

Recentemente, a Susan Boyle, uma cantora desengonçada da Inglaterra, tornou-se celebridade aos 47 anos, depois de se apresentar em um programa de calouros. O mundo ficou chocado em saber que uma cantora como aquela não havia sido descoberta antes, mas isso é o mais comum. Existem, hoje, milhares de Susan Boyles que morrerão sem ninguém saber quem foram. O que fez da Susan Boyle real uma celebridade foi ela estar no lugar certo na hora certa, um golpe de sorte, uma pequena diferença de desempenho que gerou um resultado absurdamente melhor. Foi o mesmo que aconteceu com o Rolim para que ele se tornasse o maior empresário da aviação do Brasil.

Eu ouvi dele mesmo a seguinte história. Num dado momento (muitas e muitas luas atrás), a TAM estava num momento delicado, praticamente insolvente. Não havia dinheiro em caixa nem para pagar o seguro dos aviões, que estavam vencendo, mas o Rolim, seguindo um conselho de não-sei-quem, se endividou no banco e pagou o seguro. Dias depois, um avião dele não conseguiu frear num pouso no aeroporto Santos Dumont e acabou na baía da Guanabara, dando perda total (sem mortos ou feridos). A indenização do seguro acabou resolvendo os problemas financeiros do momento, e a TAM não faliu. E se o avião se acidentasse sem o seguro ter sido renovado? Provavelmente, hoje, o Rolim estivesse pilotando para alguém na aviação executiva.

Tudo isso se baseia no mecanismo dos “mercados de tudo ou nada”, em que há altíssima assimetria entre o topo e a base da pirâmide. Logo acima, mencionei que pilotos de avião em início de carreira ganham cerca de R$3mil/mês, enquanto que os comandantes de linhas internacionais de jatos de grande porte ganham cerca de dez vezes esse valor (aproximadamente R$30mil/mês). Entre os empresários, a diferença entre os mais ricos e os mais pobres é de milhares de vezes, mesma coisa com os cantores, jogadores de futebol, etc. Respondendo a pergunta do artigo: os ricos ficam ricos porque são vencedores em mercados de tudo ou nada. Como vencer nestes mercados é que são elas: Sorte? Predestinação? Não sei; o que sei é que é preciso continuar tentando, pois a única coisa realmente certa é que quem desiste tem chance zero de ficar rico.

…Ou então partir para uma atividade não-escalável – que, segundo o Nicholas Taleb, seria a alternativa mais inteligente (isso faz parte do assunto para outro post).

*Essa história foi contada pelo próprio comandante Rolim, numa palestra para mais de 100 estudantes de administração na FEA/USP no final da década de 1980 (provavelmente 1988). Segundo o comandante, ele usava um Ford Perfect das moças para fazer serviços na cidade (ex.: ir ao banco).

(LINK para a ilustração original).